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O primeiro ano não mata empresa. O quinto, sim.

A frase mais repetida do empreendedorismo brasileiro diz que oito em cada dez empresas fecham no primeiro ano. Os dados do IBGE dizem quase o contrário: quase oito em cada dez passam do primeiro aniversário. O aperto vem depois, é lento, e muda o que se deveria fazer a respeito.

O primeiro ano não mata empresa. O quinto, sim.
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Tem uma frase que todo mundo já ouviu em palestra de empreendedorismo: oito em cada dez empresas fecham no primeiro ano. Ela é repetida com ar de dado duro e serve para todo tipo de argumento.

Os números do IBGE dizem quase o contrário. Entre as empresas que nasceram em 2017, quase oito em cada dez chegaram vivas ao primeiro aniversário. O problema não está na largada.

O número famoso está de cabeça para baixo

A pesquisa Demografia das Empresas acompanha uma safra inteira de empresas ano a ano, e o que ela mostra é um desgaste lento, não uma morte súbita. A queda começa devagar, ganha velocidade no segundo e no terceiro ano, e no quinto sobra menos de quatro em cada dez do grupo original.

Ou seja: a mortalidade é altíssima, isso é verdade. Só que ela não acontece onde a gente conta que acontece.

Essa diferença não é preciosismo estatístico. Ela muda inteiramente o que se deve fazer.

Se a empresa morresse no primeiro ano, o remédio seria abrir melhor: plano, pesquisa, capital de giro para os primeiros meses. É exatamente isso que quase todo curso de empreendedorismo ensina, e é por isso que quase todo apoio a pequeno negócio está concentrado na abertura.

Mas se ela morre entre o segundo e o quinto, o problema é outro. É o que acontece depois que a novidade passa, o sócio cansa, o cliente inicial não volta e o dinheiro que sustentou o começo acabou. Nenhum plano de negócio escrito na largada resolve isso, porque o inimigo desse período não é a falta de planejamento. É o desgaste.

Também muda quem recebe atenção. Empresa nova gera notícia, feira, programa de incentivo e foto de inauguração. Empresa de terceiro ano não gera nada. Ela está no pior momento da curva e é justamente a que ninguém procura.

E tem um dado que incomoda mais

Quando o IBGE separa as empresas pelo tamanho com que nasceram, a diferença é brutal.

Quem abriu já com dez ou mais funcionários chegou ao quinto ano em quase dois terços dos casos. Quem abriu sem nenhum empregado chegou em cerca de um terço. É o dobro de chance, decidido antes de a empresa vender qualquer coisa.

Isso desmonta boa parte da conversa sobre garra. A empresa que nasce com estrutura tem fôlego para atravessar um ano ruim. A que nasce com uma pessoa e o capital que deu para juntar não tem margem para errar duas vezes. Não é sobre querer menos.

Por setor a distância também é grande: serviços de saúde ficam bem acima da média, e serviços gerais de baixa especialização, onde entrar é barato e concorrer é difícil, ficam bem abaixo.

O outro lado, e ele é honesto

Antes de transformar esses números em tragédia, vale desconfiar um pouco deles.

Nem toda empresa que fecha fracassou. Muita gente abre um CNPJ para prestar serviço, é efetivado, e encerra. Muita sociedade acaba porque os sócios seguiram caminhos diferentes, não porque o negócio não parava de pé. Encerramento planejado conta na estatística exatamente como quebra.

E sobreviver também não é sinônimo de sucesso. Tem empresa aberta há quinze anos que não paga o próprio dono direito. Ela aparece como sobrevivente na planilha e é um problema na vida de alguém.

Dá para ler o dado de porte ao contrário, inclusive. Quem consegue abrir com dez funcionários já tinha acesso a recurso, a crédito e a rede. A estrutura pode não ser a causa da sobrevivência, e sim mais um sintoma da mesma vantagem que veio antes.

Nada disso apaga o essencial: a curva cai devagar e cai por muitos anos. É essa forma que interessa.

O que isso muda na prática

Aqui na CloudPark a gente trabalha com operadores de todos os tamanhos, e a diferença entre quem atravessa um ano ruim e quem não atravessa raramente aparece no primeiro ano de contrato. Aparece no terceiro, quando a operação já virou rotina e alguém precisa decidir se investe de novo ou vai levando.

Quem revisa preço, troca equipamento antes de quebrar e conversa com o cliente quando está tudo bem chega do outro lado. Quem só reage, não.

O que fica

Empresa quase nunca morre de um golpe.

Ela morre de anos seguidos em que ninguém teve fôlego para cuidar do que não era urgente.

Com informações da pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo, do IBGE.

#IBGE#empreendedorismo#gestão#pequenos negócios#sobrevivência
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Sobre o autor

Johnny BrandtColunista

33 matérias publicadas

CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.

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