SC tem ciência. O desafio é transformar pesquisa em empresa
Com recorde de ideias inovadoras e novos editais de fomento, Santa Catarina enfrenta o desafio de levar tecnologias científicas dos laboratórios ao mercado.

Santa Catarina construiu uma reputação nacional em tecnologia e empreendedorismo. O próximo salto, porém, exige mais do que criar aplicativos e plataformas digitais: o estado precisa transformar conhecimento científico em produtos, empresas e empregos de alta qualificação.
Esse é o território das deeptechs, negócios baseados em descobertas científicas ou avanços tecnológicos complexos. Elas podem atuar em biotecnologia, saúde, novos materiais, energia, agricultura, sensores, nanotecnologia e inteligência artificial aplicada a problemas técnicos. Diferentemente de um software convencional, essas empresas normalmente precisam de laboratórios, testes, propriedade intelectual, certificações e mais tempo para chegar ao mercado.
Um mapa que ainda está sendo construído
Em agosto de 2026, o Sebrae Startups anunciou um diagnóstico nacional para mapear as deeptechs brasileiras. O levantamento busca identificar a origem das tecnologias, o grau de maturidade, a relação com universidades e os obstáculos de acesso a capital, laboratórios, regulação, propriedade intelectual e clientes.
A existência do estudo revela uma lacuna importante: o Brasil ainda está construindo uma visão consolidada sobre esse segmento. Por isso, seria prematuro afirmar quantas deeptechs existem em Santa Catarina ou qual é seu faturamento sem que os resultados do mapeamento sejam divulgados.
O estado, no entanto, apresenta sinais concretos de capacidade científica e empreendedora.
Quase duas mil ideias em um programa
O Programa Nascer 2026, promovido pela Fapesc e pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, com execução do Sebrae/SC, recebeu 1.943 ideias para pré-incubação. Foi o maior número registrado pelo programa.
Segundo o Sebrae/SC, Edtech representou 17,3% das inscrições, Healthtech 17,2% e Tecnologia e Software 15,3%. O levantamento também identificou forte presença de modelos SaaS e de negócios voltados a outras empresas.
O resultado demonstra interesse em inovar, mas quantidade de ideias não equivale a empresas consolidadas. Entre a inscrição e o mercado existe uma jornada que envolve validação técnica, formação da equipe, proteção do conhecimento, financiamento e conquista dos primeiros clientes.
Outro programa, o Centelha 3/SC, recebeu mais de 700 propostas em 2026. A chamada prevê selecionar até 42 projetos, com fomento de até R$ 96 mil por proposta e possibilidade de até R$ 50 mil adicionais em bolsas. A Fapesc informou investimento superior a R$ 4 milhões na iniciativa.
O funil deixa claro o tamanho do desafio: há muitas ideias, mas os recursos disponíveis precisam ser direcionados às soluções capazes de superar as etapas técnicas e comerciais.
Da universidade para o mercado
As universidades catarinenses são parte essencial dessa transformação. Um exemplo recente veio do Startup Mentoring 2026/1 da UFSC. A equipe PLASMEA apresentou uma plataforma de inteligência artificial para automatizar a análise molecular sanguínea e auxiliar diagnósticos precoces. A vencedora SANFT, vinculada ao curso de Engenharia Têxtil do campus de Blumenau, desenvolveu roupas sem costura interna para pessoas com sensibilidade tátil.
Esses projetos mostram como engenharia, saúde e ciência de dados podem responder a problemas concretos. Também ilustram uma diferença importante: um projeto acadêmico promissor ainda precisa provar viabilidade produtiva, regulatória e comercial antes de se tornar uma empresa sustentável.
Capital paciente e primeiro cliente
Uma deeptech dificilmente cresce apenas com a velocidade esperada de uma startup de software. A tecnologia pode precisar de anos de pesquisa e validação. Isso exige capital paciente, laboratórios acessíveis e investidores capazes de compreender risco científico.
O primeiro cliente também exerce papel decisivo. Indústrias, hospitais, cooperativas, empresas de energia e órgãos públicos podem oferecer ambientes para testes e projetos-piloto. Sem essa ponte, uma solução tecnicamente avançada corre o risco de permanecer no laboratório.
Os instrumentos públicos de 2026 já apontam para áreas estratégicas. O edital Impulsiona, da Fapesc, contempla temas como inteligência artificial, biotecnologia, saúde, mobilidade urbana e cidades inteligentes. Outra chamada destinou R$ 6 milhões a tecnologias de interesse para soberania e defesa, incluindo biotecnologia, armazenamento de energia, materiais avançados, nanotecnologia, sensores e supercondutividade.
O indicador que realmente importa
O sucesso de Santa Catarina não deve ser medido apenas pelo número de inscrições ou projetos apoiados. O indicador mais relevante será quantas pesquisas chegam ao mercado, conquistam clientes, registram propriedade intelectual, atraem investimento e permanecem no estado.
Para isso, universidades, empresas, investidores e governo precisam atuar como partes de uma mesma cadeia. O pesquisador conhece a tecnologia; a indústria conhece o problema; o investidor entende a escala; e o poder público pode reduzir riscos nas etapas iniciais.
Santa Catarina já tem ideias, programas e instituições. O desafio agora é construir pontes capazes de transformar ciência em negócios que o mercado consiga contratar e que a sociedade possa utilizar.
Fontes consultadas: Fapesc, Sebrae/SC e Departamento de Inovação da UFSC, em publicações oficiais de 2026. Consulta realizada em 1º de setembro de 2026.
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Empreendedor à frente da Bella Top Embalagens e Embaixador do EmpreendaNews. Compartilho experiências e conteúdos sobre empreendedorismo, embalagens, inovação e valorização de marcas.
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