Lula, Bolsonaro e a Teoria do Inimigo Necessário
A polarização afetiva ajuda a explicar por que adversários políticos podem se tornar essenciais para a manutenção de identidades, narrativas e bases eleitorais. Ao longo da história, movimentos políticos cresceram também pela força de seus antagonistas, fenômeno hoje claramente perceptível na relação entre Lula e a família Bolsonaro. Quando o adversário passa a integrar a própria identidade, a disputa deixa de ser apenas eleitoral e começa a moldar comportamento, cultura e tomada de decisão.

Talvez o Corinthians precise do Palmeiras mais do que gostaria de admitir. A rivalidade fortalece pertencimento, organiza narrativas e dá ao torcedor uma referência permanente de comparação. Na ciência política, parte desse fenômeno é explicada pela polarização afetiva, quando a identidade de um grupo passa a ser acompanhada por forte rejeição ao grupo adversário. O chamado partidarismo negativo acrescenta outra camada: pessoas podem permanecer mobilizadas politicamente pela aversão ao concorrente, inclusive quando o entusiasmo pelo próprio campo diminui. Para quem disputa ou exerce poder, um adversário facilmente reconhecível ajuda a organizar a base, manter coesão e oferecer sentido contínuo à disputa pública.
A história oferece vários exemplos de identidades políticas construídas e fortalecidas dentro dessa dinâmica. Na Argentina, durante décadas, peronismo e antiperonismo ultrapassaram a discussão sobre programas de governo e passaram a funcionar como identidades políticas profundamente enraizadas, fenômeno estudado pela própria historiografia argentina. Nos Estados Unidos, pesquisas identificam desde os anos 1980 crescimento expressivo da rejeição entre democratas e republicanos, acompanhado por aumento da fidelidade partidária. O adversário ganha tamanho suficiente para participar da definição de quem somos, do que defendemos e principalmente de quem desejamos impedir que governe.
O Brasil contemporâneo oferece um exemplo quase didático. Lula e Jair Bolsonaro tornaram se referências de campos políticos que ultrapassaram seus próprios partidos, e a força dessa divisão permanece visível mesmo com a mudança dos personagens diretamente envolvidos na disputa eleitoral. Em 2026, com Jair Bolsonaro fora da corrida presidencial e Flávio Bolsonaro ocupando espaço central no campo bolsonarista, pesquisas recentes continuam mostrando uma eleição altamente concentrada entre Lula e um representante da família Bolsonaro. A literatura científica já havia encontrado polarização afetiva particularmente intensa entre lulistas e bolsonaristas nas eleições de 2022, o que ajuda a compreender por que a presença permanente do sobrenome adversário pode ser politicamente valiosa para ambos os campos.
Esse comportamento também merece atenção dentro das empresas. Organizações criam grupos, preferências, lideranças informais e rivalidades, e paixões excessivas podem transformar divergências profissionais em identidades pessoais difíceis de administrar. Quando departamentos, sócios ou gestores passam a precisar de um adversário interno para justificar suas próprias posições, decisões perdem racionalidade e a organização começa a gastar energia protegendo grupos e narrativas. Talvez a pergunta mais provocativa sobre a política brasileira também sirva para qualquer empresário: quanto da força de uma liderança vem daquilo que ela constrói e quanto depende da manutenção permanente de alguém para combater?
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Pai do Pedro e da Eva; Fundador da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
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