O offline virou o novo underground das marcas

Existe uma ironia bonita acontecendo no marketing agora. Enquanto marcas disputam milissegundos de atenção no feed e pagando cada vez mais caro por cada clique e segundo de vídeo assistido, algumas das mais inteligentes estão indo na direção oposta. Elas estão saindo da tela.
E isso não tem haver com nostalgia. É estratégia.
Isso começa a ganhar força porque todo mundo está no mesmo lugar, aí, ainda que você tenha que estar nesse mesmo lugar também, ele deixa de ser um diferencial. O digital virou o novo mass media: onipresente, barulhento, e com um consumidor cada vez mais “de saco cheio". Bons executivos de marketing já perceberam que a jornada começa online, mas talvez não funcione para valer sem uma ação presencial. Por isso, os investimentos em estruturas físicas dispararam. No Brasil, o OOH (out of home) fechou 2025 com R$ 3,5 bilhões investidos, um crescimento contínuo pelo terceiro ano consecutivo, segundo o CENP-Meios. Já nos EUA, 28% dos 100 maiores anunciantes em mídia exterior em 2025 eram empresas de tecnologia: Apple, Amazon, Google, Netflix, Meta e, pela primeira vez, a OpenAI.
Mas o que está acontecendo de mais interessante não é necessariamente volume, mas intenção.
Marimekko
Em abril de 2026, a Marimekko não montou um estande na Milan Design Week. Abriu um restaurante. A Osteria Fiori di Marimekko ocupou o centro de Milão com um conceito que reunia design têxtil, gastronomia, jardim, torneios de bocha e um menu inspirado nas cores e formas dos padrões florais da marca. Não havia produto principal à venda. Havia uma experiência completa para viver.
E não foi um acaso. É o terceiro ano consecutivo que a Marimekko faz uma grande ativação física no centro da cidade durante a semana de design. Em 2024, abriu um café chamado Bar Unikko. Em 2025, construiu uma cama gigante com 18 colchões em parceria com a artista Laila Gohar.
Essa continuidade é, ela mesma, a estratégia. Numa semana em que mais de 370 mil pessoas, entre compradores, designers e jornalistas do mundo inteiro tomam conta de Milão, presença física recorrente constrói algo que nenhum anúncio patrocinado consegue comprar: impacto, atenção, lembrança e reconhecimento cultural.
Não é um caso isolado
Fora do universo do design, o padrão se repete. A Red Bull há décadas constrói sua marca menos por anúncios e mais por eventos físicos que se tornam conteúdo. A Nike usa lojas físicas como espaços de comunidade, não apenas de venda. Marcas nativas digitais como Glossier e Warby Parker abriram lojas físicas não por pressão do mercado, mas por escolha estratégica: o espaço físico virou mídia premium.
Por que isso funciona?
Porque o offline entrega o que o online perdeu: atenção de qualidade. Presença, memória.
A experiência ao vivo é a melhor forma de marcas e produtos obterem atenção genuína para transmitirem seus valores. E o digital, principalmente pelas redes sociais, amplifica organicamente. É o combo ideal.
O paradoxo da escassez
Tem algo de contraintuitivo aqui que vale nomear: o offline se tornou raro justamente porque todo mundo foi para o digital. E o que é raro chama atenção. Uma marca que aparece numa experiência física bem construída hoje tem o mesmo efeito de surpresa que uma marca que foi para o digital lá em 2010.
Não dá para abandonar as redes sociais. Mas dá para tratar o offline como um diferencial real, e cada vez mais, o único espaço onde é possível criar algo que as pessoas realmente queiram contar para os outros.
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Especialista em comunicação e branding, com mais de 15 anos de experiência em estratégia de negócios, marketing e desenvolvimento de produto, com forte atuação no setor têxtil. Idealizadora de missões internacionais e também escritora, palestrante e TEDx speaker.
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